segunda-feira, 11 de abril de 2011

Dia de Sol

Por Renata Cordeiro

Abriu a cortina e sentiu tristeza. O dia estava lindo. Não combinava. Queria ver as nuvens carregadas no céu, queria ouvir a chuva forte, batendo no chão, varrendo tudo e molhando o vidro. Queria que o mundo também participasse do seu luto. Sentia o sofrimento de toda uma vida. Doía na alma, doía no corpo. Sabia que nada mais seria como antes. Era hora de dizer adeus.
Mas como se despedir de tudo?O que fazer com os planos de viver juntos, de comprar um carro, de mobiliar o apartamento, de casar naquela igrejinha branca no fim da rua? Como não ter os filhos que já tinham nome? Como não brigar e fazer as pazes?Como não surpreender, não decepcionar, não trazer alegria?
O dia não combinava. Teimava em dizer que a felicidade não havia morrido. Que crianças que já tinham nome não paravam de nascer. Que casais juntavam os trapos e escolhiam a almofada pro sofá da sala. Que a igrejinha branca, no final da rua, brilhava reluzente ao calor do sol. O dia que não combinava dizia, que apesar da dor, as possibilidades continuavam seu trabalho de abrir caminho para muitos outros destinos.
O dia que não combinava estava ali para relembrar que o amor é dependente. Não nasceu para caminhar sozinho. Precisa de quatro pés, dois corações. Menos que isso não vinga, não desabrocha. Morre.
Tirou o véu que cobria o rosto e enxugou os restos mortais das lágrimas que ainda rolavam sobre a pele. O luto precisava terminar. Ninguem disse que seria fácil. Mas o dia estava lindo e era chegada a hora de dizer adeus para a saudade dolorida de tudo aquilo que não viveu.